16 de maio de 2012

Cinto Branco (II)


Corpo e mente preparam-se para uma disciplina mais consciente da minha graduação. O exame surge no horizonte e as brincadeiras terão que ser outras, não só pela avaliação que serei sujeito mas porque a técnica base é o essencial nesta arte marcial. Alias, como tudo na vida. Já dizia o meu escritor predilecto: não há mal algum em construir castelos no ar desde que, a certa altura, nos preocupemos em por-lhes as devidas fundações. Sonhos todos temos, mas antes disso há muito trabalho para fazer e, no nosso caso - taekwondocas - muita repetição até à excelência (sendo essa "excelência" mais um estilo de vida que uma meta, a meu ver).

Não vou mentir: adoro pontapés, treinos dinâmicos e vertiginosos. Há treinos que podem ser - e perdoem-me o termo - mais "chatos" mas a virtude (e sempre a meu ver) de qualquer artista marcial está em retirar dessa "chatice" a sua utilidade. Quero com isto dizer que é extremamente agreste retirar prazer de algo que não vemos qualquer finalidade e, porventura, nem sequer nos damos ao trabalho de a procurar. A mente desses tolda-se e mente e corpo entram em desacordo, resultando num treino condenado ao fracasso quer físico, quer mental. Creio que esse é um dos grandes méritos do meu Mestre, em, de forma simples e entusiasta, fazer-nos compreender a utilidade de cada técnica e, dentro dela, as subtilezas que cada uma apresenta. Porque, verdade seja dita, num simples are maki há sempre algo para aperfeiçoar - o braço que defende e como flui desde o armar até à execução, o cotovelo que vem para trás e onde "descansa" a respectiva mão, a posição do tronco, a amplitude das pernas no ap kubi... e, na soma de todas as partes, a fluidez natural que resulta da reeducação dos nossos instintos e desencadeiam todo o movimento.

Mas volto ao início deste post. Falava da possibilidade eminente de graduar-me por primeira vez e, mais do que a excitação de entrelaçar acima da anca um cinto amarelo - fruto de muita dedicação e, sobretudo, paixão -, penso ainda na brancura que ostento. A brancura não é só o início mas a apologia da (boa) ingenuidade que desagua na vontade sem limites em aprender. Não sei quanto a vós, mas, no meu caso, creio que ao longo do meu Do sempre restará na minha alma essa brancura, o espírito indomável de um cinto branco. Muito sinceramente, quando chegar o dia que me gradue para cinto negro espero manter a humildade e ingenuidade que me caracteriza enquanto artista marcial. E digo "artista marcial" e não "taekwondoca" por alguma razão, pois, a não ser que ao longo do caminho percamos a nossa visão periférica, sempre seremos "brancos" em algo. E essa graduação paralela - objectivamente: outras artes marcais, meditação, leituras, etc. - só nos aporta mais virtudes enquanto praticante de Taekwondo. Depois cada um as aplica ao nível que bem entender, seja ele físico ou espiritual.

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