
Finalmente de volta ao hotel, eis que me sento na minúscula
mesa – do igualmente minúsculo quarto – para escrever sobre a experiência que
foi treinar na Hwarang Taekwondo London.
Encontrando-me várias vezes de viagem, sejam em lazer ou
trabalho, pensei ser uma boa ideia experimentar um dojang cada vez que me
ausentasse do país. Mais: sendo ainda cinto amarelo permite-me porventura ter
uma menor resistência à diferença e encarar cada experiência de treinar num
país diferente de espírito aberto. Obviamente que tenho a minha opinião e
postura marcial, daquilo que sinto ser útil para o que procuro no Taekwondo,
mas estou sempre aberto a novos ensinamentos que possa incluir nesse meu espírito sempre em mutação.
Dito isto, e aproveitando que me encontro em Londres a fazer
alguma investigação para o meu doutoramento, decidi dar início a este ritual.
Não tive qualquer critério na escolha do dojang, tendo sido praticamente o
primeiro que me surgiu após uma breve pesquisa na internet. Entrando em
contacto com o Mestre Daniel Kobbina (5º DAN), recebi a afável notícia de que
era bem-vindo. Marquei o dia e lá apareci à hora marcada.
Para minha surpresa, o Mestre Kobbina estava com alguns
alunos na Escócia, em competição. Porém, isso não me desanimou de forma alguma
e treinámos sob a sempre bem-disposta orientação do Mestre Frederic Van Damme.
Para regozijo meu, os primeiros exercícios, após um alongamento que me era
familiar, basearam-se em saltar o mais alto possível e acertar no mitt em
yoptchagui, antes de cair nos colchões. Procurava-se sobretudo timing e,
alcançado este, força para perfurar o mitt (alegoricamente o nosso adversário).
Velocidade, precisão, força de impulsão e de impacto foi, a meu ver, o que
trabalhamos neste exercício, tendo sido complementado com mais saltos acertando
no mitt com aptchaguis.
Ainda nos colchões, treinamos quedas. Para concluir, um treino bastante interessante: com o colchão junto à
parede, tínhamos que correr contra a mesma, saltar, impulsionar-nos nesta,
girar e bater no mitt em dollyotchagui. Aparentemente uma brincadeira
acrobática (das que eu gosto), tem muito que se lhe diga. Não que veja neste
movimento muita utilidade quer em competição, quer na rua, mas, mais uma vez, a
noção de distância, precisão e timing eram trabalhadas. E era igualmente um
trabalho mental. Quantas vezes o mestre corrigiu aqueles que disseram que não
conseguiam: estava tudo na cabeça deles. Esses, corriam para a parede e, ao
chegar perto dela, ou se assustavam ou, simplesmente, pensavam demais – dessa
forma o timing já não era o exacto. Particularmente gostei imenso deste treino
e sai-me bastante bem. Tendo já “brincado” a fazer acções semelhantes, o truque
está em correr contra a parede sem medo, colocar o pé à distância certa e, o
mais importante, elevar-se o mais possível, em vez de projectar o nosso corpo
na horizontal. Ao fazer da parede chão, usando-o para saltar o mais alto
possível, ganhámos mais tempo para girar, medir o nosso alvo e bater.
Passado este treino, e após alguns simples treinos a
executar dollyo 360, neryo e mondollyotchaguis no mitt, voltámos aos colchões
para treinar os tuitchaguis. Interessante treino! Os dois colchões eram erguidos na vertical como se dois escudos fossem. A pessoa que ia treinar ficava no
meio, “ensanduichado” pelos dois colchões, que avançavam ao longo da sala.
Tinha que impedir, com a força e rapidez dos tuitchaguis, que estes me
ensanduichassem de vez! É complicado explicar mas imaginem que são rodeados na
rua por duas pessoas que vos querem fazer mal. O treino servia para impedir que
algum dos dois se aproximasse demais, reagindo rapidamente para ambos lados.
Tendo em conta que são tuitchaguis, o ataque ao primeiro adversário deixa-nos
logo de frente e preparados para o segundo. Interessante.
Para concluir, as etiquetas. Era óbvio que era um ambiente
mais relaxado. Muito estranhei alguma postura algo descontraída dos alunos, que
batiam no mitt e a partir daí iam à sua vida. Eu aprendi que o pontapé só
termina quando se pousa o pé no chão e rapidamente dava lugar ao meu colega de
treino. Havia claramente uma descontração enorme que, pelo menos na minha
opinião, não é proveitoso para quem quer evoluir tecnicamente no taekwondo. Não
conseguir é uma coisa, não tentar é outra completamente diferente. Outra
estranheza foi a inicial ausência de kyaps. No aquecimento não abri a boca pois
nem os cintos pretos faziam kyap. Mas quando saltei para o mitt em yoptchagui
não fui capaz de conter a minha natureza, soltando o kyap. “I
know that maybe this isn’t right because you’re yeallow and I’m a black belt,
but that was really amazing”, disse-me um dos jovens alunos depois desta acção.
Verdade seja dita, e perdoem-me a falta de humildade, mas foi um momento de verdadeira
afirmação que contagiou toda a sala.
De facto, a minha Academia é muito mais exigente em todos os
aspectos e ao meu Mestre e colegas devo aquilo que demonstrei saber fazer. E
foi com grande orgulho que me senti física e tecnicamente apto para todos os
exercícios. A cor do cinto que usámos pouco importa se no momento da verdade
não estamos à altura do mesmo. Sinto que honrei a minha pessoa, o meu Mestre e
a minha Academia, levando o seu legado a terras londrinas.
Concluindo, mais vos podia falar mas a essência foi esta.
Taekwondo é uma linguagem corporal universal. Foi extremamente fácil adaptar-me
ao treino e às pessoas que me acolheram muito bem nesta minha breve estadia em
Londres. Levo comigo contactos e, quem sabe, futuros amigos, esperando continuar
esta aventura de taekwondo por esse mundo fora.
Apenas uma nota final: a saudação à bandeira foi diferente. A
vénia à mesma foi secundada um outro ritual: com a mão direita no peito e a
esquerda erguida em forma de juramento, repetimos todos em voz alta os
princípios do Taekwondo, erguendo no final a mão direita fechada em sinal de
vitória. Houve ali uma aura especial.