20 de maio de 2012

Cinto Branco (III)

Na fotografia: Maria Espinoza / Mexico
O último treino deu-me que pensar. Como é hábito, aos sábados treinamos competição, executando uma vasta panóplia de exercícios de acção-reacção para as mais variadas situações de combate, tanto as planeadas como, obviamente, as não planeadas. Assim foi há dois dias: formamos trios e, dispostos em linha, o elemento do meio tinha como ordem, numa determinada acção, (re)agir em contra-ataque para ambos lados. O facto de  os meus dois colegas de treino serem, respectivamente, cinto branco e preto, desencadeou um raciocínio que, aparentemente simples, tem muito que se lhe diga (ou, como quem diz a mesma coisa, muito para treinar).

É certo que quando comecei a treinar taekwondo, e mais especificamente no que aos "pontapés" diz respeito, tinha sempre a tendência instintiva de, quando remetido à defesa, fixar o meu olhar nas pernas do meu adversário. À medida que fui progredindo, o meu olhar desviou-se naturalmente desse foco, fixando como novo ponto de fuga o olhar do meu "oponente", deixando o resto a cargo da minha visão periférica. O olhar é, se não treinado, "bufo" por excelência. E não pretendendo divagar sobre emoções (é fácil denotar medo ou receio nos olhos do oponente), quero antes chamar a atenção para os olhares que denunciam reflexos físicos, os delatores, claro está, de uma acção. Para os mais graduados não será novidade alguma e algo, permitam-me a repetição, obviamente óbvio, mas, para um cinto branco, é útil que se aperceba o quanto antes deste facto que vai muito além de ser um mero pormenor. Seja em que contexto for: no taekwondo ou na rua.

Voltando à acção que relatei no início deste post, reagia quase sempre com sucesso aos ataques do meu colega cinto branco. Percebi que todo o seu corpo falava comigo e ao observar minuciosamente cada mínimo reflexo muscular, percebia quando ia "disparar". Mas mais do que isso percebi como o olhar denunciava o ataque: se por vezes era clamoroso, vendo como me olhava previamente para o colete antes de atacar, outras vezes era mais subtil mas não menos denunciador da sua acção. A esse respeito notei pequenos tiques que me indicavam, de forma gritante, que ia ser alvo de ataque. E esses tiques iam desde o simples piscar de olhos até a uma ligeira abertura das pálpebras no momento da acção. E, ao perceber isso, é como se visse o meu oponente mexer-se em câmara lenta. Já a minha colega cinto preto tinha um olhar frio como o gelo. Olhava-me e dali não levava a mínima informação, não conseguindo adivinhar quando me iria abordar, restando-me reagir o mais rápido possível aos seus reflexos físicos. Porventura, quanta mais experiência adquirir, quanto mais treinar estes pormenores, poderei ler o mais apático dos olhares. E aí serei dono da situação, qualquer que ela seja.

Toda esta reflexão vem no contexto de, nos últimos dias, ter matutado sobre a decisão de ser atleta de competição ou manutenção. Ou seja, a competição dá-nos, a meu ver, certos tiques que se tornam instintivos, não tão efectivos numa situação de perigo real (e mais agora com os coletes electrónicos). Sou apologista do ditado que diz que o grande objectivo das artes marciais é nunca fazer uso delas mas, numa situação de rua, de perigo eminente, espero agir da forma que mais rapidamente termine com o assunto. Por outro lado, o treino de competição parece-me extremamente útil para o que aqui tem sido discutido. Se por acaso for abordado na rua, mais habilidade terei para perceber se aquela pessoa irá entrar, de facto, no meu espaço. E, caso entre, como o pretende fazer. Se porventura não conseguir perceber a sua linguagem corporal, farei uso dos meus (cada vez mais imediatos) reflexos, outra "matéria" amplamente beneficiada pelos treinos de competição.

Para terminar, espero apenas que não me tenham entendido mal no que respeita à competição. Experimentei no meu dojang e dá-me uma adrenalina tremenda! Acho fantástico delinear estratégias (se bem que, no meu caso, ainda pareço um carro de alta cilindrada desgovernado!), estudar o oponente, saber o timing exacto de cada acção, tomar decisões em fracções de segundo... Mas como em tudo na vida, requer treino e, como é óbvio, tempo. E se esta vida moderna tem mais de "moderna" que de "vida", somos forçados a tomar opções. A minha sempre foi de trabalhar corpo e mente ao mesmo tempo, assimilando e questionando cada princípio do taekwondo, a sua inerente filosofia. O meu entusiasmo não é apenas fruto do excitamento que é praticar uma arte marcial pela primeira vez, da novidade: fui sobretudo seduzido pelos princípios do taekwondo, pela sua filosofia, por constatar de facto uma forma de estar na vida. Sem este elo entre corpo e mente talvez o meu entusiasmo fosse o de uma criança que, mais tarde ou mais cedo, deixa o brinquedo antigo pelo novo.

PS - Não atribuo nomes aos meus colegas por uma questão de respeito e privacidade.

16 de maio de 2012

Cinto Branco (II)


Corpo e mente preparam-se para uma disciplina mais consciente da minha graduação. O exame surge no horizonte e as brincadeiras terão que ser outras, não só pela avaliação que serei sujeito mas porque a técnica base é o essencial nesta arte marcial. Alias, como tudo na vida. Já dizia o meu escritor predilecto: não há mal algum em construir castelos no ar desde que, a certa altura, nos preocupemos em por-lhes as devidas fundações. Sonhos todos temos, mas antes disso há muito trabalho para fazer e, no nosso caso - taekwondocas - muita repetição até à excelência (sendo essa "excelência" mais um estilo de vida que uma meta, a meu ver).

Não vou mentir: adoro pontapés, treinos dinâmicos e vertiginosos. Há treinos que podem ser - e perdoem-me o termo - mais "chatos" mas a virtude (e sempre a meu ver) de qualquer artista marcial está em retirar dessa "chatice" a sua utilidade. Quero com isto dizer que é extremamente agreste retirar prazer de algo que não vemos qualquer finalidade e, porventura, nem sequer nos damos ao trabalho de a procurar. A mente desses tolda-se e mente e corpo entram em desacordo, resultando num treino condenado ao fracasso quer físico, quer mental. Creio que esse é um dos grandes méritos do meu Mestre, em, de forma simples e entusiasta, fazer-nos compreender a utilidade de cada técnica e, dentro dela, as subtilezas que cada uma apresenta. Porque, verdade seja dita, num simples are maki há sempre algo para aperfeiçoar - o braço que defende e como flui desde o armar até à execução, o cotovelo que vem para trás e onde "descansa" a respectiva mão, a posição do tronco, a amplitude das pernas no ap kubi... e, na soma de todas as partes, a fluidez natural que resulta da reeducação dos nossos instintos e desencadeiam todo o movimento.

Mas volto ao início deste post. Falava da possibilidade eminente de graduar-me por primeira vez e, mais do que a excitação de entrelaçar acima da anca um cinto amarelo - fruto de muita dedicação e, sobretudo, paixão -, penso ainda na brancura que ostento. A brancura não é só o início mas a apologia da (boa) ingenuidade que desagua na vontade sem limites em aprender. Não sei quanto a vós, mas, no meu caso, creio que ao longo do meu Do sempre restará na minha alma essa brancura, o espírito indomável de um cinto branco. Muito sinceramente, quando chegar o dia que me gradue para cinto negro espero manter a humildade e ingenuidade que me caracteriza enquanto artista marcial. E digo "artista marcial" e não "taekwondoca" por alguma razão, pois, a não ser que ao longo do caminho percamos a nossa visão periférica, sempre seremos "brancos" em algo. E essa graduação paralela - objectivamente: outras artes marcais, meditação, leituras, etc. - só nos aporta mais virtudes enquanto praticante de Taekwondo. Depois cada um as aplica ao nível que bem entender, seja ele físico ou espiritual.

9 de maio de 2012

Cinto Branco (I)

Desde miúdo que quis praticar uma arte marcial mas, por razões que só posso atribuir às distracções com que a vida nos depara (muitas delas negativas, na minha própria existência), nunca cheguei a fazê-lo. Agora, perto dos meus 30 anos, não decepcionei a criança que outrora fui, decidindo experimentar "algo". E não poderia ter tido mais sorte, quer na arte/estilo escolhido, quer na Academia e colegas (agora amigos!) que encontrei. Pois foi tudo tão rápido que só posso sentir-me agradecido por ter sido bafejado pela sorte.

Ainda no passado mês de Dezembro andava à deriva até que decidi começar à procura da minha arte marcial. Confesso que nunca gostei do contacto que alguns estilos apresentavam, como Judo ou Jiu-jitsu, nem de nada porventura "demasiado" físico/marcial (se bem que agora, passados 5 meses desde o começo do meu "do", comece a sentir curiosidade). Visualizei alguns vídeos de diferentes artes marciais e fiquei entre o Taekwondo e o Kung Fu. Porém, a espectaculosidade e a fluidez dos movimentos do Taekwondo seduziram-me logo. Não procurei mais, aquela era a minha arte e só me faltava encontrar um dojang rapidamente. Encontrei-o, à primeira tentativa, e já é a minha segunda casa.

Sou cinto branco, de uma orgulhosa brancura, de espírito aberto ao ensinamento do meu mestre e dos meus colegas. Taekwondo é vida, literalmente. Muitas das lições que tenho aprendido são transpostas para o dia-a-dia. E talvez por sempre ter ido à procura do sentido filosófico de tudo com que me depara a vida, reflexiono bastante sobre o que estou a fazer. Procuro perceber a sua história e filosofia, explorando cada vertente ela seja física ou mental, ainda que por vezes - tenho que admiti-lo - me perca em divagações que me retira um pouco de disciplina comportamental. Quer dizer, na minha condição deveria centrar-me em executar correctamente as primeiras técnicas e repeti-las vigorosamente e conscienciosamente. Claro que nada do que tenho explorado - alongamentos, saltos, endurecimento, etc. - sejam um desperdício mas, como disse, devia centrar em executar correctamente as técnicas que me são exigidas na minha graduação. Não que me falte disciplina ou dedicação. Nos treinos sou humilde e obediente ao meu mestre; no tempo livre que tenho do dojang gosto de, basicamente, explorar o meu corpo e ir além dos limites.

Passados 5 meses posso dizer que já consigo "brincar" um pouco com o meu corpo e a sensação é gratificante, acompanhada por vezes de arrepios de felicidade quando a flexibilidade (cada vez mais) me permite esticar ou levantar as pernas a limites em Dezembro impensáveis, quando as minhas ancas "dançam" e executam um dollio tchagui decente ou quando começo a ganhar consciência de cada ínfimo músculo, como usa-lo, como trabalha-lo. A confiança, dentro ou fora do dojang, eleva-se à estratosfera. Alguns dias caminhei para a Academia porventura cansado, aborrecido com algo, mas tudo se evapora ao entrar no dojang. É como se através do suor exorcizasse todos os males que afligem a alma. E regresso a casa em paz, de sorriso nos lábios. Sinto-me novamente uma criança e, sem vergonha alguma, confesso que muitas vezes que apetece fazer o caminho para casa a passo de "Jardim da Celeste"

É difícil exteriorizar, em monólogo, o que o Taekwondo me tem proporcionado. É tudo isto que escrevi e muito mais. E esse é o objectivo desta espécie de diário: contar-vos o meu caminho. Cada um terá o seu mas a partilha é importante e talvez inspire alguma "criança adulta" a acreditar que nunca é tarde demais.